O Ladrão de Almas

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Jonathan Holdorf. 2018.

Jonathan Holdorf. 2018.

Ele havia chegado na sua nova casa.

Largou as suas coisas no chão e foi investigar os cômodos. Não eram muito pequenos, mas também não muito grandes - eram de tamanho ideal para alguém que moraria sozinho. A cozinha era velha, desgastada e cheia de gordura por todos os lados. "Vou passar duas tardes nisso", pensou.

Na cama, em um dos quartos no lado esquerdo de um corredor estreito, havia apenas uma câmera Polaroid preta e diversos papéis fotográficos em branco. Eles não estavam lá quando visitara a casa pela primeira vez.

Deu de ombros e tirou uma selfie para guardar como recordação.

Fez um lanche e começou a faxina. Tirou poeira de onde precisava tirar poeira, exceto da cozinha, que ele não limparia tão cedo. Faltava apenas o quarto no qual encontrara as polaroids em branco. Ao se aproximar da cama, um frio na barriga lhe invadiu como se algo o tivesse assustado. As suas mãos suavam e seu peito acelerava. Agora cada um dos papéis exibia um tipo diferente de imagem. A primeira fotografia era uma mistura borrada de cores. A segunda mostrava uma figura muito nítida de um olho. E assim foi reorganizando os papéis em sua mão como um habilidoso jogador de baralho. Cada Polaroid que ele pegava, algo novo surgia, como um quebra-cabeças.

Espalhou os papéis pelo chão e começou a montar o enigma. Ele havia ficado tão imerso no desafio que não percebera que o sol já se punha. O quarto agora estava escuro, iluminado apenas pela luz do luar. O sono o confundira e não tinha certeza do que estava vendo. Pensou estar alucinando.

Dormiu.

Sua mente demorou alguns minutos até se dar conta de que havia dormido no quarto, que o quebra-cabeças era real e que a imagem permanecia a mesma. Levantou, caminhou ao redor dos papéis e ficou parado olhando para aquilo.

Viu a si mesmo com os olhos arregalados e as mãos tentando agarrar o outro lado da imagem, como se estivesse batendo em uma janela de vidro. Seu reflexo transmitia terror, sua voz era silenciosa e gritante ao mesmo tempo. Lágrimas congeladas desciam pelo seu rosto.

Quando entendeu o que aquilo significava, caiu. E de lá nunca mais levantou.