LAMPEJO AFLITIVO

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Sua fagulha já não brilhava mais. Ela não tinha luz. As pessoas haviam se esquecido dela. “Eles têm algo melhor agora”, pensava. “Eles podem viver sem mim”.

Lembrava-se de quando ficava reunida com as pessoas na sala, ouvia a música sendo tocada pela garotinha no piano, encantava-se com as histórias de ninar e deixava-se ser consumida pelo calor que a acalmava.

Ela era feliz.

Com o tempo, ninguém mais a convidava para ir às reuniões de família. Sua essência fora substituída por outra luz, uma luz mais divertida, mais brilhante.

Ela nem podia chorar. Suas lágrimas acabariam de vez com a sua existência.

Mas ainda assim permitia-se ter esperança. Talvez, um dia, alguma velhinha olharia para dentro da gaveta, a pegaria na mão e usaria a sua chama para iluminar um livro em uma noite sem luz.


Na semana passada eu me inspirei pela newsletter do Robson Alessandro, em que ele compartilha “pensamentos sobre criatividade, produtividade, tarô, arte e links”, quando li esta cartinha disponível no arquivo dele: “Ninguém mais tem vela em casa”.

Ele fala sobre essa coisa de que não fazer nada também é ótimo, que não precisamos estar sempre ligados em tudo, que usar um tempo da nossa vida para cuidarmos de nós mesmos é fundamental. Isso já deveria ser óbvio para nós, mas quando menos percebemos estamos caindo novamente no buraco da constante atualização.

O texto dele me inspirou e eu lembrei de um momento, lá em 2016, quando um temporal terrível caiu sobre Florianópolis e faltou energia elétrica. Eu reservei aquele tempo para ler e também para fotografar a vida a partir daquela perspectiva.

É incrível como tudo fica diferente quando a energia elétrica deixa de existir por algumas horas. E também é irônico, porque a fotografia depende de luz, mas durante a noite não temos esse momento para ver uma fotografia sem luz. Bem, sem luz elétrica.